Bhutto alertou a CNN sobre riscos de segurança antes de atentado

Um assessor da ex-premiê paquistanesa Benazir Bhutto, assassinada na quinta-feira (27), havia enviado ao jornalista Wolf Blitzer, da rede de TV CNN, um e-mail da ex-premiê se queixando da falta de segurança que enfrentava. No entanto, a mensagem só poderia ser divulgada caso ela morresse.

Bhutto alertou a CNN sobre riscos de segurança antes de atentado

Bhutto, assassinada na quinta-feira em atentado após comício em Rawalpindi, escreveu a Blitzer que se algo acontecesse com ela “Eu declararia (o ditador Pervez) Musharraf responsável”.

Blitzer recebeu o email em 26 outubro, enviado por Mark Siegel, amigo e porta-voz de Bhutto em Washington. A mensagem foi enviada oito dias depois de a ex-premiê escapar de um atentado a bomba que deixou 136 mortos no dia em que chegou ao Paquistão, após oito anos de exílio.
Bhutto escreveu a Blitzer que ela se sentia “insegura por causa dos homens (de Musharraf)”, que melhoras específicas não haviam sido feitas em relação à sua segurança, e que o líder paquistanês era o responsável.

Blitzer concordou com as condições (de não publicar) antes de receber o e-mail. Ele disse que ligou para Siegel logo após recebê-lo, para saber se havia alguma forma de usá-lo na CNN, mas teve uma resposta firme de que a mensagem só poderia ser usada se ela fosse morta. Siegel não soube dizer porque Bhutto insistiu nessa condição.

Bhutto alertou a CNN sobre riscos de segurança antes de atentado

Blitzer divulgou o email na noite de quinta-feira. Ele afirmou que Bhutto havia escrito um texto para a CNN mencionando suas preocupações de segurança, e que políticos americanos tentaram intervir para aumentar sua segurança.

Blitzer foi o único jornalista que recebeu a mensagem, disse Siegel. Ele também mandou o email a Steve Israel, parlamentar americano pelo Estado de Nova York.

Siegel disse não acreditar que Bhutto tenha mudado de opiniões desde quando escreveu a mensagem. O email mencionava especificamente que ela havia pedido carros da polícia para escoltá-la quando viajasse. Siegel disse que pelas fotos tiradas na cena do crime é evidente que sua requisição não havia sido atendida.

A ex-premiê não acredita necessariamente que Musharraf quisesse matá-la, mas sentia que muitas pessoas ao seu redor queriam, disse Siegel.

O marido de Bhutto entrou em contato com Siegel na quinta-feira para lembrá-lo do e-mail e garantir que ele seria divulgado, segundo o porta-voz.

Blitzer disse não se arrepender sobre a forma que lidou com o caso. Divulgar a mensagem enquanto ela ainda estava viva seria descumprir com a palavra, afirmou.

Versões

Nesta sexta-feira o Ministério do Interior paquistanês afirmou que Bhutto morreu ao se chocar contra o teto do veículo em que se encontrava no momento do atentado suicida, tentando se esquivar da explosão, sem que fossem encontradas balas em seu corpo.

Um dos principais assessores de Bhutto rejeitou as explicações do governo e as qualificou de “porção de mentiras”.

De acordo com a necropsia, a líder opositora morreu por causa de uma fratura no crânio ao bater com a cabeça contra a alavanca do teto solar, quando tentava se proteger da explosão dentro do carro, disse o porta-voz do Ministério, brigadeiro Javed Cheema.

Quando o ataque aconteceu, Bhutto saía de um comício eleitoral em Rawalpindi, perto de Islamabad, e saudava seus partidários. O porta-voz avaliou que ela não teria sido vitimada, se tivesse ficado no interior do carro.

“Se ela não tivesse colocado o corpo para fora do veículo (pelo teto solar), ela teria saído ilesa, porque todos os outros ocupantes do carro não tiveram qualquer ferimento”, completou.

“A alavanca a atingiu na têmpora direita e fraturou seu crânio. Não havia balas ou fragmentos de mental no ferimento”, explicou a fonte.

Al Qaeda

Por outro lado, Cheema disse ainda que os serviços de inteligência interceptaram uma ligação de um homem que é considerado o chefe da rede terrorista Al Qaeda no Paquistão, Baitullah Mehsud, parabenizando um militante pela morte de Bhutto.

Ele revelou também que há provas irrefutáveis de que a Al Qaeda está tentando desestabilizar o Paquistão e mostrou um vídeo dos últimos momentos de Bhutto.

“Há uma prova irrefutável de que a Al Qaeda, suas redes e suas tropas tentam desestabilizar o Paquistão”, afirmou o general Cheema, acrescentando que “gravamos a conversa, ao longo da qual ele parabeniza um ativista pelo atentado”.

Aparentemente, o autor do atentado deu três disparos na direção de Benazir Bhutto, antes de detonar a bomba que carregava, sem conseguir, porém, atingir a ex-premiê, declarou o general Cheema.

O porta-voz afirmou que Mehsud também foi responsável pelo atentado suicida cometido em outubro, em Karachi, no sul do Paquistão, contra o comboio de Benazir, algumas horas após seu retorno do exílio. Esse atentado, do qual ela escapou, deixou 139 mortos.

“(Mehsud) é responsável pela maioria dos atentados no país”, declarou.

As autoridades paquistanesas acreditam que Mehsud esteja instalado na zona tribal do Waziristão Sul, no noroeste do Paquistão, onde as forças governamentais combatem as milícias islamitas desde a queda do regime Taleban no Afeganistão, no fim de 2001.

Até recentemente, Mehsud foi descrito pelas autoridades como o principal comandante do Taleban da região, mas as autoridades atribuem a ele, com cada vez mais freqüência, laços com a rede de Osama bin Laden.

As exéquias de Benazir Bhutto foram acompanhadas nesta sexta-feira por milhares de pessoas em Ghari Khuda Baksh, no sul do Paquistão.

Os EUA, que têm o Paquistão como importante aliado no combate à rede terrorista Al Qaeda e ao Taleban, acreditavam que Bhutto, educada nas universidade de Harvard e Oxford, era a melhor chance de retorno da democracia ao país.

“Mentiras”

Um dos principais assessores de Bhutto rejeitou nesta sexta as explicações do governo sobre as circunstâncias e causas de sua morte e as qualificou de “porção de mentiras”.

A explicação oficial “não tem fundamento”, disse Faruq Naik, principal conselheiro jurídico de Bhutto e membro do Partido do Povo do Paquistão (PPP), dirigido pela ex-premiê.

Segundo Naik, a ex-primeira-ministra “foi atingida por dois tiros: um no abdômen e outro na cabeça. Não havia segurança”.

“O secretário pessoal de Bhutto, Naheed Khan, e o responsável do partido, Makhdoom Amin Fahim, estavam no automóvel e viram o que aconteceu”, afirmou Naik.

Segundo ele, trata-se de “uma perda irreparável”, e o governo a “está transformando em uma brincadeira com tais declarações”‘O país se dirige para uma guerra civil’, afirmou Naik.

“Agora, o governo diz que Baitullah Mehsud é o responsável. Onde está a prova?”, disse Naik, em relação à acusação do governo sobre os autores do atentado.

A morte de Bhutto provocou importantes distúrbios no Paquistão, que deixaram pelo menos 33 mortos desde quinta-feira, além das 20 pessoas que faleceram junto com a ex-primeira-ministra no atentado.

A líder política foi enterrada nesta sexta, no mausoléu da família, que fica no sul do país, seguida por uma multidão desesperada que culpou o ditador, Pervez Musharraf, pelos males que abalam o país.

Fonte: Folha Online

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